sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

EVERYWHEN-MASSIVE ATTACK


Ás vezes pergunto-me se a vida é ou não circular. Só assim se explica que aquilo que vamos aprendendo e apreendendo ao longo da vida se mostra por vezes inútil e o nosso pragmatismo mero fait-divers enfiado na algibeira por razões que a minha razão desconhece. Tipo umas botas que comprei em saldos num outlet de uma "marca" nacional desconhecida por 15 euros que não eram nem pareciam grande coisa e que eu sabia que me iam magoar os pés. Mas mesmo assim comprei e dei umas voltas só para constatar que não as devia ter comprado. O que, a bom ver, eu já sabia.
Um "ataque massivo" de estupidez fez-me cair no logro que eu próprio criei. Não há volta a dar: o que não presta nunca vai prestar. Ainda estou para perceber porque paguei por uma coisa que muitos outros, com critérios bem mais flexíveis do que os meus, nem oferecido queriam.
De vez em quando dá-me para isto.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Linda Martini - As Putas Dançam Slows


Nunca percebi o porquê de num país tão pequeno quanto o nosso se persistir em deixar o talento e a qualidade de muitos no ocaso quando despudoradamente se promove um populismo bacoco e idiota ou uma qualquer mixórdia sonora estrangeira que nada cria, nada inova, nada acrescenta.
Ao invés, faz-nos menos. Menos conscientes daquilo que, com vontade, conseguimos produzir. A música é só um exemplo.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Caminho


Debito um cigarro após o outro
Olhos postos no vazio à procura de mim entre a chuva que cai
O frio não me incomoda, aceito-o em comunhão de alma
No silêncio temperado por um acorde
Respiro o sorriso que perdi e não me falta
Não me apetece apetecer o teu corpo no meu
Ás vezes só porque sim
Na monotonia de um nada que aparta o medo de cair
Ser no sonho e mais além por um dia
Foi assim


domingo, 5 de dezembro de 2010

Inverno


O Inverno lembra-me sempre da minha alma, pesa-ma, revolta-ma, na vontade de ser nuvem à espera do vendaval que a leve para longe.
O Inverno lembra-me que me tenho de ir embora, de mudar, de sentir o Sol e de respirar ao entardecer. Faz-me lembrar que tenho de deixar de tentar compreender as coisas ao pormenor e de aprender a lidar como facto de que, por mais que se tente, as folhas das árvores acabam por cair para dar lugar a outras folhas.
Há coisas que acontecem só porque sim, outras porque não poderiam ser de outra maneira.
Estou cansado. Tenho frio. Estou vazio. Não há folha que recrudesça em mim.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Em construção


Não me basto pela metade nem pelo calor da tua cama. Quero-te no ocaso e no crepúsculo. De alma em riste misturada com a minha. Brisa suave, tempestade violenta. A tua pele e mais adentro. No hoje amanhã, no ontem depois. A dois e em mim.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Verdade


A verdade é que a vontade de sorrir me tolda as evidências e me deixa ir, transformando-me de céptico ponderado num crente irreflectido. E ponho-me em risco. A jeito de tombar com o mais leve sopro, ainda que siga em sentido contrário. E insisto. Porque me custa a admitir que errei ao pensar que estava errado. Não por acidente ou erro de raciocínio, antes pura dialética de quem põem a mão no fogo sabendo que se vai queimar. E que nele fica até doer.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A Minha Alma Partiu-se



A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

Álvaro de Campos, in "Poemas"