terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Caminho


Debito um cigarro após o outro
Olhos postos no vazio à procura de mim entre a chuva que cai
O frio não me incomoda, aceito-o em comunhão de alma
No silêncio temperado por um acorde
Respiro o sorriso que perdi e não me falta
Não me apetece apetecer o teu corpo no meu
Ás vezes só porque sim
Na monotonia de um nada que aparta o medo de cair
Ser no sonho e mais além por um dia
Foi assim


domingo, 5 de dezembro de 2010

Inverno


O Inverno lembra-me sempre da minha alma, pesa-ma, revolta-ma, na vontade de ser nuvem à espera do vendaval que a leve para longe.
O Inverno lembra-me que me tenho de ir embora, de mudar, de sentir o Sol e de respirar ao entardecer. Faz-me lembrar que tenho de deixar de tentar compreender as coisas ao pormenor e de aprender a lidar como facto de que, por mais que se tente, as folhas das árvores acabam por cair para dar lugar a outras folhas.
Há coisas que acontecem só porque sim, outras porque não poderiam ser de outra maneira.
Estou cansado. Tenho frio. Estou vazio. Não há folha que recrudesça em mim.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Em construção


Não me basto pela metade nem pelo calor da tua cama. Quero-te no ocaso e no crepúsculo. De alma em riste misturada com a minha. Brisa suave, tempestade violenta. A tua pele e mais adentro. No hoje amanhã, no ontem depois. A dois e em mim.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Verdade


A verdade é que a vontade de sorrir me tolda as evidências e me deixa ir, transformando-me de céptico ponderado num crente irreflectido. E ponho-me em risco. A jeito de tombar com o mais leve sopro, ainda que siga em sentido contrário. E insisto. Porque me custa a admitir que errei ao pensar que estava errado. Não por acidente ou erro de raciocínio, antes pura dialética de quem põem a mão no fogo sabendo que se vai queimar. E que nele fica até doer.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A Minha Alma Partiu-se



A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

Álvaro de Campos, in "Poemas"

terça-feira, 2 de março de 2010

Confissão

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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Assim se vai indo

Esperava voltar aqui e ter algo de novo para dizer. Mas não. Tirando as férias - que foram excelentes - nada de particularmente novo aconteceu que mereça um registo sério, nem uma mínima efeméride sobre a qual se me ofereça discorrer.
É certo, passamos um período em que muito se disse e ouviu e escreveu, mas contas feitas continua tudo na mesma. O Eng. Sócrates continua a ser governo, o prof. Cavaco continua a não estar fresco e esclarecido, a ansiada retoma continua a ser mais um "toma lá do mesmo".
Bem, passei por aqui só para que saibam que ainda estou vivo. E que um dia destes vou tentar seriamente escrever algo que se aproveite.